Passaram-se vinte anos desde que a segunda Estrela da Morte foi destruída e a Nova República teve início. Leia, é uma das senadoras mais influentes, reconhecida por seus feitos heroicos ao lado dos rebeldes, começa a repassar os possíveis erros na elaboração da constituição que uniu os planetas das orlas interna e externa da Galáxia. Teriam errado em alguma coisa ao criar um cargo suportado pelo carisma de Mon Mothma? Pois logo que ela se afastou, o senado começou a se dividir em dois grandes polos que só pensam nos próprios planetas: os centristas que acreditam em um poder centralizado militarmente e os populistas que defendem uma maior autonomia.

Cansada da política, com medo da polarização ideológica rachar o Senado e provocar o esfacelamento da Nova República, Leia pensa em se afastar do cargo. Mas antes, uma última missão: investigar uma organização criminosa que vem se fortalecendo no mundo independente dos Ryloth ao mesmo tempo que mostra para os senadores que a liberdade conquistada com a queda do Império é tênue e precisa ser cultivada de forma ampla e não adianta ficar olhando para o próprio umbigo.

A descrição dos sintomas do enfraquecimento da democracia galática observada por Leia me incomodou bastante, não por não ser bem construída narrativamente, mas pelas semelhanças com nossa atual situação política no Brasil. No livro temos jovens senadores, que não participaram da guerra que restaurou a República, que tratam o Império como um passado distante e inalcançável digno de ser colecionável. Foi difícil não lembrar dos grupos que apoiam o retorno à ditadura militar. Outro paralelo é a descrição dos mais novos senadores: extremamente conservadores e centralizadores, conquistam a população ao gritar mais alto, sem se importar com a veracidade ou não de sua fala. Alguém lembra de certos grupos que se dizem “a” políticos?

A investigação do grupo criminoso é encabeçada por Leia e Rasolm Casterfo, senadores antagônicos, mas que passam a conhecer melhor os problemas e as virtudes de cada ideologia ao aprofundar nas crenças e convicções de cada personagem. Ao acompanhando a dupla temos a hábil pilota da Espelho Brilhante Greer Sonnel, ela acompanha Leia a muito tempo, mas sente saudades da época em que se aventurava nas corridas. Korr Stella, a estagiária do Senado. Joph Seastriker, o piloto de escolta que acompanha o grupo com sua X-Wing. E o acompanhante oficial da princesa, C3PO, o droide tagarela protocolar.

Assim que o grupo volta ao senado para relatar o ocorrido e expor a necessidade de combater esse perigo iminente Leia e Casterfo se surpreendem com a inanição dos políticos e em uma jogada arriscada, a centrista Lady Carise propõe a eleição de um líder com poderes acima do Senado. E com isso vemos plantado mais uma semente para um novo governo centralizador e Leia precisa reassumir sua posição de líder e heroína para impedir que a sombra do império recaia mais uma vez sob a galáxia.

A narrativa de Claudia Gray é intensa, ela equilibra com maestria as cenas de ação e investigação com os complexos debates políticos e disputas pelo poder. Abordagem que sozinha já seria suficiente para indicar a leitura deste livro, tamanha sua relevância para o momento em que vivemos, no qual grupos conservadores extremistas estão ganhando espaço. Mas a autora vai além, e apresenta elementos essenciais para o entendimento da cronologia dos novos filmes como o surgimento da perigosa Primeira Ordem. É o segundo livro que leio desta autora nesse novo universo expandido de Star Wars (o outro foi lançado pela Seguinte, Estrelas Perdidas, veja a crítica aqui) e não preciso pensar muito para colocá-la como a melhor autora da franquia.

Lançamento recente da editora Aleph, mantém seu padrão de qualidade gráfica na escolha do papel e nos elementos de design não textuais, como as sempre envolventes páginas estreladas que nos jogam imediatamente para o cenário galático. Já é costume da editora encomendar capas próprias, e esta possui detalhes muito importante em toda composição dignos de uma análise semiótica. A ilustração, feita por Astri Lohne, mostra uma princesa Leia com idade mais avançada da que estamos acostumados a ver, cansada e sem apresentar seu sorriso sarcástico, mas ainda assim imponente. No fundo, de forma que pode até passar despercebida de olhares menos atentos, mostra que ela é assombrada por um fantasma do passado, uma sutileza magnífica, carregada de significados internos e externos à trama.

Mais um ótimo livro para acrescentar ao universo e à coleção de todo fã de Guerra nas Estrelas.

Comentários

Copyright © 2017 Tapioca Mecânica.
Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por Luke Design Studio




Copyright © 2017 Tapioca Mecânica.
Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por Luke Design Studio

Share This