Depois do sofrível Esquadrão Suicida, David Ayer assumiu o Bright um projeto de franquia do Netflix, o filme foi lançado no sistema de streaming alguns dias antes do Natal. Trata-se de um drama policial ambientado em uma Los Angeles atual, mas povoada por seres fantásticos como elfos, orcs, fadas e toda uma série de criaturas. Pelo menos essa seria a premissa.

A princípio fiquei bastante animado em ver uma versão Live Action do conhecido cenário (pelo menos entre os jogadores de RPG) de Shadowrun. Guardadas as devidas diferenças, essencialmente temos um mundo contemporâneo, com todos seus problemas étnicos e sociais já conhecidos, mas agora ainda mais complexos por causa dos seres fantásticos. Dentre as inúmeras possibilidades temáticas Ayer apresenta algumas bastante interessantes como base de seu filme: preconceito e corrupção.

Rapidamente descobrimos que a estratigrafia social contemporânea foi potencializada, com os orcs representando a base e os elfos o topo e no meio de tudo os humanos. E como o cenário não foi elaborado para ser simples, cada espécie mantém suas próprias pirâmides étnico-sociais, no caso dos humanos os negros e latinos se mantém à margem da sociedade. Assim, nos é apresentada a ambientação de uma Los Angeles extremamente atual, pois mesmo sem os seres fantásticos, reconhecemos as mazelas expressas pelos abismos sociais que crescem a cada dia, esse foi o principal acerto de Ayer. No entanto, por vezes ele acaba exagerando no didatismo de apresentação do cenário do submundo da cidade dos anjos, como se o diretor não acreditasse na capacidade interpretativa do espectador, e isso pode incomodar.

O filme começa como um típico policial, apresenta os dois protagonistas, Will Smith (Scott Ward), que interpreta o policial humano e a poucos anos da aposentadoria (sempre temos um policial se aposentando, é incrível) e o parceiro, o primeiro orc na força policial, Nick Jakoby, interpretado por Joel Edgerton. A interação da dupla é o melhor do filme, acreditamos na inocência do orc, e entendemos a resistência que Ward tem em aceitar o parceiro, tanto pelo medo do que poderia acontecer com sua família, pois não acredita mais na força policial como mantenedora da lei, quanto por puro preconceito

Os elementos históricos que compõe o cenário vão surgindo aos poucos como pano de fundo, como a profecia do retorno do Lorde das Trevas. Um ser que provocou uma guerra que quase dizimou o planeta cerca de 2000 anos no passado, são profetas de rua que parecem os que levantam placas nas nossas cidades e anunciam que o fim está próximo. É interessante como mesmo nesses pequenos detalhes pode-se perceber analogias ao nosso mundo, pois não seria a grande guerra das raças uma versão mágica do início da época cristã? O filme finalmente engrena, e o ritmo se torna frenético, quando a dupla de policiais responde um chamado e encontra uma elfa e uma das quatro lendárias varinhas mágicas que podem destruir (e também invocar) o temível Lorde das Trevas.

Mas então temos um grande problema de direção de arte, pois se o cenário urbano decadente de Los Angeles é bem retratado, as cenas noturnas são tão escuras que fica difícil entender o que se passa em cena. Somado a isso, Ayer parece se perder nas cenas de ação, pois além de escuras se torna ainda mais inteligíveis pela confusão provocada pela escalada de grupos que surgem do nada para perseguir os protagonistas. Outra grande falha foi não dar o devido crédito aos maquiadores que fizeram grande parte do que realmente se destaca no filme.

Enfim, guerra de gangues, preconceito racial e étnico, violência e extorsão policial, conspiração e corrupção são os grandes temas que compõe essa produção da netflix que já ganhou sinal verde para a continuação. Essa foi mais uma produção que prometeu muito mais do que entregou e a expectativa criada pela própria Netflix prejudicou a imagem do filme, mas ele tem elementos interessantes e vale a pena assistir.

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Copyright © 2017 Tapioca Mecânica.
Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por Luke Design Studio




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