Porque precisamos do Pantera Negra?

Porque precisamos do Pantera Negra?

por Daniel Baptista – Historiador e Antropólogo. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).Pesquisador do Grupo de Estudo e Pesquisa em História e Gênero (GEPEHG) da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Há um certo tempo atrás, depois de ver todo meu entusiasmo e empolgação com o lançamento do filme “Pantera Negra”, um colega muito querido me pediu para lhe enviar um texto que fosse sobre o super-herói, seu filme e sobre as expectativas em torno deste lançamento. Me disse “Por que você não escreve sobre quem é o Pantera Negra? Muitas pessoas não o conhecem e seria bom que alguém escrevesse apresentando essa figura para o público em geral”. Concordei e pensei que seria bom fazer uma boa e detalhada apresentação. Alguns dias depois, porém, me veio de assalto as palavras, ideias, e percebi que não queria apenas apresentar o personagem: gostaria de dizer a todos que possam ler essa pequena fuga de minha rotina não “Quem é o Pantera Negra?” mas “Por que precisamos do Pantera Negra!?”.

John F. Kennedy

E por que mesmo precisamos do Pantera Negra? Revendo alguns documentários e entrevistas que tenho salvo aqui em meu notebook, encontrei duas falas instigantes que me ajudaram muito a pensar do porque precisamos desse herói. Ao longo da década de 1960, nos Estados Unidos, Robert Kennedy, irmão do ex presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy, procurador geral dos EUA e, mais tarde, Senador pelo Estado de Nova York, falaria em uma declaração pública:

Robert F. Kennedy

“Os negros estão continuamente progredindo neste país. O progresso, em muitas áreas, não é tão rápido como deveria ser, mas eles estão fazendo progressos e vão continuar fazendo progressos. Não há razão para que, num futuro próximo e previsível um negro também não possa ser presidente dos EUA”

Não há razão para que, num futuro próximo e previsível, um negro também não possa ser presidente dos EUA”, assim falou Bobby Kennedy, considerado por muitos, um político progressista e subversivo. Progressista por defender publicamente os direitos civis dos negros em uma época em que eram negados os direitos civis mais básicos às comunidades negras, como elegerem seus próprios candidatos e votarem em quaisquer representantes que fossem. Subversivo por apoiar, também, figuras criminalizadas e hostilizadas pela opinião branca popular do período, como o reverendo e orador Martin Luther King.

A resposta mais lúcida e honesta ao comentário de Bobby Kennedy, porém, viria não de um grande orador ou vulto popular, mas de um intelectual nascido e criado no gueto do Harlem, negro e homossexual, que teve por muito tempo seu reconhecimento nublado pelos preconceitos e exclusão social: James Baldwin.  Militando pela causa negra e publicando textos ácidos e críticos sobre segregação racial, sexualidade, política e literatura, James Baldwin falaria, em um debate na Universidade de Cambridge, em 1965:

“Eu lembro, por exemplo, quando o ex procurador geral, o sr. Robert Kennedy, disse que era concebível que daqui a 40 anos poderíamos ter um presidente negro. Aquilo pareceu uma declaração bastante libertária para os brancos. Eles não estavam no Harlem quando essa declaração foi ouvida pela primeira vez. Eles não ouviram e possivelmente nunca ouvirão o riso, o desgosto e o desprezo com que a declaração foi recebida. Para o dono da barbearia do Harlem, Bobby Kennedy só chegou ontem e agora já está a caminho da presidência. Estamos aqui a 400 anos e agora ele nos diz que talvez daqui a 40 anos, se você for bom, podemos deixar você se tornar presidente”.

James Baldwin

Há exatos 44 anos da declaração de Baldwin e Kennedy, Barak Obama seria eleito o primeiro presidente negro dos EUA. Saindo da realidade para ficção, da política para o universo das HQ’s, temos, finalmente, o Pantera Negra, fazendo sua primeira aparição nas histórias em quadrinhos em 1961, em um arco denominado “The Arrival”, do Quarteto Fantástico. Depois de apresentado ao público, o Pantera só retornaria no universo ficcional da Marvel em 1966, quando, além de mostrar ao público a maravilhosa nação africana de Wakanda, ainda marcaria presença derrotando todos os membros do Quarteto Fantástico juntos. De 1966 até a presenta data, 15 de fevereiro de 2018, tivemos a aparição de alguns outros super-heróis negros como o adolescente Virgil Hawkins, que enfrentou grandes desafios como Super Choque; John Stewart, um dos membros da tropa dos Lanternas Verdes; Ororo, a mutante membro do grupo dos X-Men, conhecida como Tempestade; e mesmo as adaptações cinematográficas de Blade, o caçador de vampiros, por Wesley Snipes, ao longo da década de 1990.

Virgil Hawkins, o Super Choque

        

Ororo, a Tempestade, dos X-men

Mesmo com esse aumento significativo da presença negra no mundo ficcional, demorou, assim como no caso de Baldwin e Obama, com a questão da “presidência negra”, novamente, mais 44 anos para termos uma adaptação cinematográfica de peso voltada eminentemente para o público negro. Foi em 30 de setembro de 2016, com o lançamento da série Luke Cage, pela plataforma da Netflix, que tivemos uma produção inteiramente voltada para a questão representativa das comunidades negras nas telinhas e nos enredos super-heróicos.

Um personagem definitivamente ambíguo. Por um lado, inovador: Luke Cage foi criado na década de 1970, precisamente no ano de 1972, como o primeiro super-herói afro-americano a ter sua própria história em quadrinhos. Isso significa que ele não surge como mais um coadjuvante dos “grandes super-heróis” e nem como mais um “personagem preto à serviço dos brancos”, como foi com Falcão, um dos muitos parceiros do Capitão América. Luke Cage não é o coadjuvante. Ele é o protagonista. Luke Cage não é mais um figurante no meio dos grandes super-heróis. Ele é o grande super-herói.

Por outro lado, ele foi, em sua gênese na década de 1970, a representação dos estereótipos por si: negro, forte, musculoso, truculento, morador de gueto, ex-presidiário, impulsivo e que só sabe falar por gírias. Foi na prisão, num experimento científico ilegal feito com prisioneiros, que ganha seus principais super-poderes: superforça e uma pele impenetrável… Ele se tornou, literalmente um negro a prova de balas, o que é por demais significativo do imaginário social sobre o homem negro e sobre seu cotidiano marginal.

Mas Luke Cage foi lançado no formato serial, em uma plataforma online, 44 anos depois de sua primeira aparição em sua própria revistinha, em 1972. Com o Pantera Negra, demoraríamos, 52 anos, se contabilizarmos a partir de 1966; 57 anos, se pensarmos em sua primeira aparição.

Pensem bem, meus caros leitores: 44 anos para a aparição do primeiro super-herói afro-americano em um seriado próprio; 44 anos para a aparição do primeiro presidente negro eleito dos EUA; 57 anos para aparição de um super-herói como o Pantera Negra que, ao contrário de Luke Cage, que foi o primeiro afro-americano a conquistar super-poderes, Pantera Negra foi o primeiro super-herói negro a existir no universo ficcional dos quadrinhos. Nesse meio tempo, quantas adaptações seriais, televisivas, e cinematográficas tivemos de personagens como Super-Homem, Flash ou o Batman? Mesmo a Mulher Maravilha, que não teve uma aparição tão ostensiva quanto a de outros personagens masculinos do mesmo porte foi, assim como outros heróis e heroínas, revitalizada em novas adaptações cinematográficas contemporâneas, teve garantida menções pontuais em seriados de super-heróis masculinos (como na série “Smallville”) e suas própria séries televisivas entre as décadas de 1960 e 1970 até sua reaparição em 2017, com a atriz Gal Gadot.

Mulher Maravilha, de Lynda Carter, em 1970.

Mas o Pantera Negra não é como os outros super-heróis negros que temos visto até então: o Pantera Negra não veio dos guetos, não se expressa por gírias ou luta para pagar suas contas no fim do mês em sub-empregos no subúrbio. T’Challa, o homem negro que veste o manto do Pantera não é mais um subalterno ou personagem para cobrir lacunas. Ele é Rei. Com um doutorado em Física pela Universidade de Oxford, o personagem fictício também se consagra como um exímio inventor, um singular cientista e rei da nação ficcional de Wakanda, a nação tida como a mais avançada moral e tecnologicamente do Universo Marvel.

Podemos dizer sem maiores receios que a figura de T’Challa concentra em si grande parte do que poderíamos chamar de “imaginário social do negro ideal”: culto, respeitado, inteligente e sábio. T’Challa seria a representação de tudo aquilo que os negros, estadunidenses ou não, projetariam para si em oposição aos espaços e representações que nos foram imputados ao longo de séculos de subalternização histórica, social e imaginária. E não apenas isso: tudo dentro do universo em torno do Pantera nos parece sugestivo e representativo. Wakanda, a nação fictícia africana foi o único reduto do continente africano que nunca foi colonizado, seja pelo branco ou seja pelas nações vizinhas; Ulisses Klaw, um dos principais vilões do Pantera e de Wakanda, é um Europeu oriundo da Bélgica que teve uma de suas mãos arrancadas, nos quadrinhos, pelo próprio T’Challa. Klaw (que significa “garra”, em inglês) ganha a vida tentando não apenas invadir o país nunca antes conquistado, mas traficando o minério fictício do Vibranium, uma das matérias primas mais importantes na confecção de armas e aparatos tecnológicos dos super-heróis, fazendo uma referência literalmente clara e direta à colonização Belga no Congo, conhecida historicamente como um dos regimes coloniais mais truculentos da História, onde a moeda de troca que movimentava o mercado interno era as mãos dos nativos que não alcançavam as taxas de produções desejáveis.

Ulissys Klaw, o vilão Belga de “Pantera Negra”.

Rei, guerreiro, cientista, diplomata, rico, intelectual, influente, governante de uma nação nunca antes conquistada, Wakanda, o país africano ideal. T’Challa, assim, reúne em torno de si e de seu universo tudo aquilo que negro contemporâneo no mundo ocidental sonharia em ser, em uma utopia ou projeção anti-colonialista, onde a colonização fracassou e a África venceu.

Colonizador Belga ao lado de nativos com suas mãos amputadas, Séc. XIX.

Mas, afinal de contas, por que precisamos do Pantera Negra? Por que precisamos de filmes e produções que destaquem e ressaltem a presença negra e tenham negros e negras como público alvo? Bem antes das grandes produções cinematográficas que conhecemos e do debate em torno da participação massiva dos negros e negras nessas mesmas produções, no início dos distantes anos de 1910, nos Estados Unidos, Jack Johnson se tornaria o primeiro campeão mundial dos pesos pesados negro da história do boxe moderno. Encontrei sobre sua história em minha pesquisa de mestrado, ao estudar sobre a relação entre a prática de esportes de combates e a presença de atletas majoritariamente negros.

Jack Johnson, primeiro negro Campeão Mundial dos Pesos Pesados, em 1908

Ele costumava ser extremamente contestador e uma figura irreverente aos padrões da época, frequentando espaços que outras pessoas negras não podiam frequentar. Comprava vinhos caros e os tomava de canudinhos e convocava toda a imprensa para vê-lo treinar. Quando os repórteres apareciam, ele estava em seu centro de treinamento, semi-nu, causando horror em seu público com seu pênis envolto em gazes. Finalmente, um repórter, cansado de suas provocações públicas lhe pergunta: “Qual o motivo de tanta hostilidade? Qual o motivo de tantas agressões?” e Jack Johnson lhe responde de maneira simples, porém impactante: “Eu sou negro, e vocês nunca deixaram eu me esquecer disso. Eu sou Negro e nunca vou deixar que vocês se esqueçam disso”.

E é exatamente por isso que precisamos de heróis e heroínas como Pantera Negra, Tempestade, Super Choque, Blade e tantos outros: porque a presença de suas narrativas nos mostram que é possível criar histórias diferentes, positivas e contestadoras sobre a figura e representação das pessoas negras; porque a presença desses personagens denunciam nossa ausência ainda gritante de tantos espaços físicos e imaginários dos quais somos não apenas indesejados, como também apagados; porque a presença dessas figuras e de suas histórias servem para lembrar a todos que nós somos negros e ninguém nunca deixou que esquecêssemos isso, porque somos negros e estamos aqui, hoje, para nunca deixar que todos vocês esqueçam disso. Vida longa ao Rei! Wakanda Forever!

 

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Como o criador de Mario desenvolve jogos?

Como o criador de Mario desenvolve jogos?

Poucos designers de jogos são mais famosos do que Shigeru Miyamoto. Uma lenda dos videogames, há mais de 30 anos ele faz sucesso mundial trabalhando junto com a Nintendo. Entre o rol dos grandes games desenvolvidos por Miyamoto, ele participou da criação de Mario, Zelda, Donkey Kong, Star Fox e tantos outros.

Com um currículo tão relevante, Miyamoto, respeitado em todo mundo dos videogames, deu uma entrevista para o canal do YouTube “Fox” em que detalhou o que ele prioriza e utiliza na hora de criar grandes sucessos.

Miyamoto revolucionou o mundo dos games desde o início de seus trabalhos, no fim da década de 1970. Ele cita que foi um dos primeiros que criaram jogos sem trabalhar exclusivamente como engenheiro de hardware. “Quando comecei, a maioria dos desenvolvedores eram engenheiros. Eu, desenhista, tinha uma visão diferente”, conta o japonês. Logo no quarto jogo desenvolvido, ele criou Donkey Kong, que é um dos maiores sucessos da história.

Um dos principais básicos de Miyamoto é não seguir apenas a tendência. O japonês gosta de pensar fora do senso comum e de evitar ir na onda do que está sendo produzido. “Eu gosto de explorar o que ninguém ainda explorou”, afirma o designer de jogos. Em 1998, quando a internet ainda não era um fenômeno globalizado, ele já antecipava que os jogos online seriam a grande sensação entre os gamers.

Como outro pilar no desenvolvimento de histórias, Miyamoto prioriza a simplicidade e é imprescindível que esteja presente na história durante o início: “É necessário ser descomplicado. A primeira coisa que o jogo precisa ter é o senso de completar algo e o jogador a satisfação de ser recompensado de alguma maneira”.

Miyamoto também compartilha que ele procura que seus games tenham o senso de imersão. “É importante ter a sensação de que você está imerso no jogo, de que você virou um herói”, afirma o designer.

E como tornar um jogo imersivo? Além da simplicidade dos controles, como aponta Miyamoto, também é preciso criar personagens cativantes e que sejam carismáticos de alguma forma com o público. Além do protagonista, Super Mario Bros, lançado em 1995, resultou em vários outros famosos no mundo dos games, como as tartarugas inimigas de Mario (Koopa Troopa), um dos mais icônicos da história dos videogames.

Mais de 30 anos se passaram desde a estreia do Mario e o game segue muito popular no mundo todo. Só em 2017, foram lançados oito jogos envolvendo o icônico personagem.

Um dos segredos da simplicidade de Miyamoto ao criar jogos é tornar com que tudo seja intuitivo. Dessa maneira, não é necessário desperdiçar tempo aprendendo em tutorial como o game funciona. Assim, com o Donkey Kong, ele projetou um esquema de jogo vertical, enquanto no Mario ele fez com que o game sempre fosse progredido do lado esquerdo para o direito.

Outro ponto que ajuda na simplicidade dos jogos de Miyamoto é utilizar símbolos mundialmente conhecidos. Na primeira fase de Super Mario Bros., por exemplo, símbolos como interrogação e cogumelo aparecem logo de cara. Miyamoto afirma que nada disso é aleatório, e que essa simplicidade faz que o jogador saiba como jogar o game em poucos movimentos.

Simplicidade, criatividade e pensar além do senso comum. Com esses princípios, Miyamoto cravou seu nome na história dos videogames e tem um legado mundial. Uma história de muito sucesso de alguém que ainda está na ativa e segue produzindo grandes jogos.

 

 

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O Império do Vinil Contra-Ataca

O Império do Vinil Contra-Ataca

Olá, eu sou Igor Pontes, normalmente eu tô aqui falando sobre livros e filmes, mas que tal expandir um pouco? E que tal expandir para algo que com certeza todo mundo faz que é escutar música! Então, mistura tudo isso, e a novidade é que de agora em diante o Tapioca Mecânica falará sobre música também. E para começar com pé direito, um texto de apresentação sobre a indústria do Vinil com o professor de história Vinicius Araújo de Oliveira, dono da Vertigem Discos. Boa leitura!

O título desse texto poderia ser “O Retorno do Vinil” fazendo alusão ao Retorno de Jedi. Porém, “O Império do Vinil Contra Ataca” tem mais legitimidade. Ora. Como posso falar de algo que nunca desapareceu? Atenção leitores, o disco de vinil só estava descansando nas casas dos colecionadores, resistindo em lojas clássicas que ainda estão abertas ou em feiras populares. E como uma segunda Estrela da Morte ele está contra-atacando as plataformas de streaming com seu visual analógico de obra de arte acionado por uma agulha e girando a 34 ou 45 rotações por minuto!

Uma criação de 1948 que substituiu de vez os pesados discos de goma-laca transformou a indústria fonográfica no mundo inteiro. Carinhosamente chamado de bolachão o LP (Long Play) tem maior resistência tanto a temperatura como ao choque. Seu material plástico tem uma durabilidade incrível podendo ser lavado (Sim! Lavado!) como se fosse um prato na sua pia. Seu corpo é composto de microssulcos que comportam músicas de qualidade sonora superior devido principalmente seu tamanho que pode ser de 12 (LP) ou 7 polegadas (Compacto).

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Ok. Mas, Streaming e CD não ocupam tanto espaço. Não é verdade. Quanto mais você tiver de qualquer coisa vai ocupar espaço (em casa ou no HD), ou seja, essa é uma das maiores desculpas sobre não ter discos de vinil. Mesmo que as vendas e a produção no Brasil tenham parado em idos de 1997 por causa dos leitores digitais que invadiam as lojas em uma onda de progresso tecnológico as produções de vinil não pararam pelo mundo. Claro que em termos de venda houve uma diminuição drástica e as sessões das lojas diminuíram, mesmo assim, os clientes fiéis estavam sempre lá aumentando suas coleções e preparando secretamente em suas casas um contra-ataque musical (Eu sou um deles).

Alguns dados: O Brasil possui duas grandes fábricas de discos de vinil que já com equipamentos estrangeiros e as antigas prensas dos anos 80 estimam um crescimento de 20% nas vendas por ano. A Sony já anunciou o retorno da produção de LP’s para breve. No ano passado 3,2 milhões de discos foram vendidos no Reino Unido, desde 2009 existe a Third Man Records do músico Jack White (White Stripes, The Raconteurs, The Dead Weather) que se tornou um dos maiores incentivadores do retorno da cultura do vinil nos Estados Unidos. E não para! Séries e filmes estão lançando suas trilhas em vinil ou fazendo referência a ele em seus episódios. Recomendo por exemplo The Get Down da NETFLIX. Bandas estão relançando seus materiais em edições especiais belíssimas, raridades estão sendo desenterradas depois de anos.

Mas os preços são altos demais tanto do equipamento quanto dos discos! Varia muito (Já retorno a essa parte). Mesmo sendo produzido em série em diferentes tipos de máquinas do corte à prensa, o disco de vinil é um produto de qualidade e beleza singular. Não é só uma mídia sonora. É uma obra de arte a ser admirada enquanto se escuta. Hoje a música pode ser selecionada e gerar intermináveis playlists contendo fragmentos de álbuns. Muitos artistas hoje preferem lançar singles à álbuns completos. Já o LP te dá a oportunidade (mesmo que forçadamente pois você terá que virar o disco) de escutar uma obra em sua totalidade. Ao mesmo tempo, você vai passear por horas nas capas e nos encartes.

Sim! E os preços? Desde novembro do ano passado eu montei a Vertigem Discos uma loja virtual e ao mesmo tempo presencial nas feiras que rolam em Fortaleza. Hoje existe uma variedade incrível de vendedores e lojas comercializando LP’s de época aos mais recentes. Os preços variam muito pois quando são antigos relevamos o estado da capa, do disco, se é raro ou não. Assim, você pode achar discos de R$10 até acima de R$200. Sobre os equipamentos, lojas e feiras de vinil estão entupidas de vitrolas antigas, novas e de diferentes preços. Sim meus amigos! É um contra-ataque. Mas não um de tipo violento e sim maravilhoso pois a música agrega gostos, estilos, saudosistas, hipsters, geeks, cinéfilos, roqueiros, forrozeiros, etc.

Quero começar a colecionar, continuar de onde parei, quero ver, quero visitar, como faço? Bom existe a minha querida Vertigem Discos (fazendo quase um ano) e também as feiras que rolam em Fortaleza se liga: Todo primeiro sábado de cada mês rola a Feira Afins de Vitrola no Mercado dos Pinhões, a cada dois meses acontece o Fuxico do Vinil no Dragão do Mar e no mesmo período no segundo domingo a Feira Vinil é Massa do Floresta Bar e Restaurante. Para saber mais das datas e das novidades me sigam no Facebook: Vertigem Discos e no Instagram: @vertigemdiscos.

 

Vida Longa ao Vinil e que a Força esteja sempre com vocês.v

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Discutindo com Tapioca | Do Superman ao homem-aranha | Parte 11/12

Discutindo com Tapioca | Do Superman ao homem-aranha | Parte 11/12

Por Batata sem Umbigo (Rafael Gironi Dias)

Amazing Fantasy n° 15

 As letras que formam Amazing Fantasy pintadas de amarelo ocupam toda aparte superior da capa. Embaixo, um homem fantasiado com um colante azul e vermelho carrega um outro homem de maneira despojada utilizando apenas uma mão. Na outra mão segura algo parecido com uma corda. As partes vermelhas de sua roupa parecem ser cobertas com uma espécie de teia, assim como na curvatura de suas axilas, lembrando asas, Tem uma grande aranha desenhada no peito e seus olhos, também grandes, são brancos, contrastando com todo o uniforme. Ao redor pode-se ver prédios e pequenos homens admirando a personagem fantasiada, mesmo que seus rostos não apareçam, pois estão muito longe, não é muito difícil de imaginar expressões de surpresa e espanto. Lê-se Homem-Aranha na capa e este fala através de balões amarelos: “O mundo pode até zombar do adolescente tímido Peter Parker… mas logo irá se maravilhar com o incrível poder do… Homem-Aranha!” – está foi a capa de agosto de 1962, último número de Amazing Fantasy.

No recheio da revista conhecemos Peter Parker, um adolescente que está no primeiro grau, veste uma camisa branca de mangas compridas, um suéter preto e uma gravata vermelha, além de um óculos com lentes grandes e redondas; olha com tristes olhos para os outros jovens que não são seus amigos e zombam de sua cara. Peter é mimado pelos tios May e Ben Parker, que o criaram, é um ótimo aluno com predileção por ciências, não tem sorte com mulheres e é ignorado pelos outros rapazes. Ao visitar um laboratório que faz experiências com energia atômica, Peter é picado por uma aranha que foi acidentalmente irradiada. Após uma leve tontura percebe que seu corpo está diferente, quando um carro quase o atropela, ele se salva pulando e se agarra na quina de um muro, percebe que pode escala-lo, e o faz. Parker descobre que seu equilíbrio e sua força estão aperfeiçoados, tem um senso de perigo latente, ou seja, de alguma maneira desenvolveu poderes de aranha.

Peter decide participar de uma exibição de luta livre para testar seus poderes. Facilmente derrota o lutador conhecido como “esmagador Hogan!”, e é visto por um agenciador de talentos para shows televisivos. Peter utiliza seus conhecimentos de química para sintetizar uma teia capaz de aguentar seu peso, cria também um uniforme para esconder a sua identidade do público, assim faz um tremendo sucesso na televisão. Arrogante, não ajuda a capturar um ladrão que era perseguido por um policial. O tempo passa e Peter continua ganhando dinheiro com suas exibições, até que seu tio Ben é assassinado após ser assaltado. Descontrolado, o sobrinho vestido de Homem-Aranha sai em busca do assassino que fora encurralado pela polícia em um depósito. Após confundir e desferir um soco no assassino, Peter o reconhece, este era o ladrão que ele não impedira tempos atrás. Após entregar o assassino envolto de teias para a polícia, se lamenta pela morte do tio: “Arrasado, Peter desaparece na escuridão em silêncio, finalmente ciente de que, neste mundo, grandes poderes trazem… grandes responsabilidades!”.

Em apenas onze páginas Stan Lee faz algo que nunca tinha ocorrido antes nas HQs. É claro que personagens adolescentes e até crianças já haviam aparecido: Robin, no Batman; Buck, no Captain América; e até Rick Jones, em The Incredible Hulk; mas um adolescente protagonista de uma HQ era inédito. Lee deixa de lado toda a ficção científica de Hulk e Quarteto Fantástico, capturando apenas a tensão psicológica dessas personagens, para isso os desenhos de Ditko são fundamentais e complementares a história, mesmo estando com máscara o leitor parece notar expressões de arrogância quando o herói recusa ajudar o policial a capturar o ladrão, ou surpresa, quando descobre a identidade do assassino de seu tio.

Porém, é a personagem Peter Parker que mais difere do comum. Peter é o que se chama hoje em dia de nerd (ou geek), ou seja, um garoto com dificuldades de relacionamento, que sofre com gozações na escola e que busca fugir do mundo real, seja se afogando nos estudos, seja criando mundos particulares, na fantasia ou na ficção científica, nos pulps ou nas histórias em quadrinhos. Sendo nerd ou não, após inúmeros pedidos de leitores que abarrotaram a caixa de correspondência da Marvel Comics, o Homem-Aranha ganhou título próprio em março de 1963, tornando-se o principal super-herói da editora e ícone pop da nova cultura que se formava.

 

  • Batata sem Umbigo é desenhista, roteirista, fanzineiro. Ganhador do premio Angelo Agostini de melhor Fanzine de 2012 com Miséria. Responsável por diversas publicações independentes como Refluxo e Chafurdando na Merda. Toca com maestria o blog http://batatasemumbigo.blogspot.com.br/

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Discutindo com Tapioca | Do Superman ao homem-aranha | Parte 10/12

Discutindo com Tapioca | Do Superman ao homem-aranha | Parte 10/12

Por Batata sem Umbigo (Rafael Gironi Dias)

Stan Lee + Jack Kirby = Sucesso

Stan Lee começou cedo na indústria de quadrinhos, primeiro como office boy, conseguiu um estágio na Marvel Comics, lugar onde escrevia algumas tiras de humor ou pequenas histórias que envolviam monstros com nomes estranhos. Com a crise de meados da década de 1950 pensava seriamente em mudar de emprego. Jack Kirby, co-criador de Capitão América já não acreditava mais no ramo de HQs e tinha em mente começar a desenhar para publicidade. Quando o editor chefe da Marvel deu a Stan a oportunidade de criar um grupo de super-heróis no mesmo estilo que a Liga da Justiça da editora rival, antiga All América e atual DC Comics, tinha, este não pestanejou em convidar Kirby para ser seu parceiro. E assim foi criado o Quarteto Fantástico.

O estilo verborrágico de Lee aliado aos desenhos cheios de expressão de Kirby fizeram com que um grupo composto por um cientista super-inteligente que se estica como borracha, uma mulher que fica invisível e cria escudos protetores, um adolescente que literalmente “fica em chamas” e um monstro de pedra chamado Coisa, cativassem as crianças, principalmente as de doze a catorze anos. As histórias envolviam monstros que saiam da terra e viagens espaciais, o melhor da fantasia que a ficção científica poderia criar, e estes heróis não se escondiam atrás de identidades secretas, todos sabiam seus nomes e eles eram reconhecidos como heróis.

Em maio de 1962, poderia-se conferir mais uma amostra da capacidade criativa para o absurdo da dupla. Em The Incredible Hulk, após salvar um jovem de ser atingido por uma explosão radioativa, um cientista transformasse em um monstro cinza irracional que sai destruindo tudo que vê pela frente, praticamente uma alegoria em quadrinhos de The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hydedo escocês Robert Louis Stevenson. Mas Stan Lee tinha uma outra ideia para uma personagem, algo que acreditava ser diferente do que estava sendo feito até ali. Com sua proposta recusada d início, Lee desistiu da idéia, mas com o número 15 da revista Amazing Fantasy sem roteiro, nenhum fracasso seria importante, já que o título seria cancelado, então, Stan Lee foi chamado novamente para colocar sua ideia maluca que envolvia aranhas em prática. Para o feito ele chamaria o artista de traço fino e delicado, cheio de tensão e nuances psicológicas, Steve Ditko.

  • Batata sem Umbigo é desenhista, roteirista, fanzineiro. Ganhador do premio Angelo Agostini de melhor Fanzine de 2012 com Miséria. Responsável por diversas publicações independentes como Refluxo e Chafurdando na Merda. Toca com maestria o blog http://batatasemumbigo.blogspot.com.br/

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